sexta-feira, 10 de setembro de 2010

COLAGEM

No dia 03/10/2010 completarei 4 anos de Itália. Sim, 4 anos... quase meia década! Em Setembro de 2006 passei o rodo em Fortaleza, embarquei em Outubro e a família em Novembro. Motivo: SONHOS.

Para comemorar a data, resolvi fazer uma "colagem" das diversas fases de uma "vida cumprida a só". Vale a pena correr atrás dos sonhos? Eis o meu testemunho.

Infância:
Vivida em um distante paraíso amazônico, reino da liberdade, rodeado de livros que eram lidos com prazer, geralmente aumentado por meio pão com manteiga e açucar. Devido a um problema de saúde no ouvido direito ao qual me submeti a 3 cirurgias, uma das quais no Rio de Janeiro, não pude participar das muitas brincadeiras de rua com meninos da mesma idade, mas a proximidade com a Zona Franca de Manaus me permitiu haver brinquedos incríveis que não esqueço: Autorama Emerson Fittipaldi, Estação Lunar, Skate Hang-Ten de fibra de nylon, uma pipa de pano e bambu enorme que eu não podia empinar, pois os garotos com papagaio de papel e fio encerado eram feras e a derrubariam em um piscar de olhos, um robot que andava e girava 360° atirando com metralhadoras iluminadas escamoteadas em portas que abriam e fechavam no peito, um avião movido a pilha com barulho de turbina que andava no chão, parava, piscava luzes nas asas e partia novamente, um navio também movido a bateria, perfeito em todos os detalhes, que eu brincava com meu pai em uma fonte da cidade e, melhores de todos, carrinhos de ferro Matchbox "Made in England" que, infelizmente, não existem mais, pois são atualmente fabricados na China e não chegam nas calotas dos originais. Tive uma coleção incrível! Construia estradas e brincava no muro de um terreno baldio que tinha na frente da minha casa. Hoje essas miniaturas valem boa grana no e-bay. Infelizmente não me sobrou nenhuma.


Mais. Coleção completa dos Manuais Disney, cujo preferido era o Manual do Escoteiro, que ensinava sobrevivência na selva e alguns truques interessantes. Walk-Talk para brincar de polícia e ladrão, com o suporte de excelentes revólveres de espoleta na cintura, bicicleta e tantos outros que fizeram minha infância realmente muito feliz na companhia de alguns amigos e minhas 4 irmãs que, na ausência deles, eram obrigadas a brincar comigo. Não entendo até hoje como sobrevivi, pois fora desse mundo aparentemente seguro, enfrentei perigos na rua andando em cavalo que encontrava pela estrada, pegando carona em carroceria de pick-up para chegar até a escola, desafiando ladeiras com bicicleta e skate e outras travessuras.

Nasci no dia 01/05, dia do trabalho e do trabalhador. Desde a idade de 10 anos meu pai sugeriu que eu trabalhasse. Assim, na tipografia dos Franciscanos, junto com outros garotos da mesma idade, iniciei minha vida de trabalhador e nunca mais parei. 

Nesse período, iniciou o contato com a MÚSICA, que dura até hoje.


Adolescência:
Quando completei 12 anos e estava para iniciar o 2° grau (sim, com 12 anos eu já estava lá, o que era uma pena, pois todas as garotas da minha classe eram mais velhas que eu), aceitei de livre e espontânea vontade a proposta de meus pais para estudar em um internato em Pernambuco. Ali passei 3 anos felizes, frequentei um excelente Conservatório, terminei o 2º grau e retornei para Belém. Fiz cursinho e, com 17 anos, vestibular para Administração. Passei. Me formei com 21 anos. Início da fase adulta.

Internato: se trabalhava para completar o pagamento dos estudos.

Adulto:
21 anos! Enquanto fazia Administração, trabalhava como estagiário no BASA, aprovado que fui em concurso público, e estudava Piano e Regência de Coro no Conservatório Carlos Gomes. Passava pelo menos 4 horas por dia trancado em uma sala de música. Resolvi que gostaria de trabalhar com Recursos Humanos e, para isso, era importante o curso de Psicologia. Fiz o bacharelado em Belém. Terminei junto com o Conservatório, quando tinha mais ou menos 26 anos. Durante esse tempo sempre trabalhei. Dei aulas particulares de música, dirigi a parte musical em peças de teatro onde conheci minha esposa e com a trupe viajamos e nos apresentamos pelo Brasil, fiz o projeto VARIASONS, cuja história o escritor paraense Ismael Machado registrou no livro "Decibéis sob Mangueiras", integrei uma banda como tecladista e, com esse grupo, participei de festivais universitários de música.  A gente tocava pop-rock e a preferência do júri na época, não sei hoje, era pelo pau-e-corda, carimbó, cobra-grande, essas coisas. Depois me vinguei quando me convidaram para integrar o outro lado como jurado e apresentador de festivais do SESC para a TVE local. Participei como co-piloto de pegas na Augusto Montenegro, das pipocas do Círculo Militar, como espectador do Lapinha, na Condor e apreciador de heavy-metalprogressivo. Fã da Rita Lee, tive praticamente a coleção completa de discos até o momento em que ela decidiu casar e pasteurizar a música para vender mais.

Estive em Nova York, na New York University, onde meu "curriculum" musical e acadêmico havia sido aprovado para Mestrado em Musicoterapia. O CNPq negou a bolsa. Não interessava esse curso ao país, foi a resposta que recebi. Escrevi ao Governador do Pará na época contando a odisséia e dele recebi uma passagem aérea que me permitiu ir lá como aluno-ouvinte, inclusive dos ensaios e serviços do Coro da Catedral de St. Patrick. Meu Inglês era aquele aprendido no IBEU. Depois, fiz um curso livre de Musicoterapia na Universidade Estácio de Sá, em Fortaleza, devidamente certificado.


Dos meus pais tive como apoio, em casa, um quarto, comida e ajuda no pagamento dos estudos. Não é pouco. A eles, minha eterna gratidão pela maior riqueza que deles herdei: Educação. Será também esta a herança dos meus filhos.

Passada essa fase onde fumei e bebi todas (com moderação), arrumei as malas e estava partindo para Curitiba, terra da música, quando a Profa. Glória Caputo, então diretora do Conservatório Carlos Gomes, me indicou para dirigir uma escola de música em Fortaleza, pois eu já dirigia algumas particulares em Belém. Aceitei. Casa, comida, bom salário... lá fui eu, ainda solteiro. A realidade era muito diferente da prometida, mas não desisti. Em Fortaleza concluí a formação em Psicologia, com especialização clínica (Freud, gênio como Bach, Mozart e Beethoven). 2 anos foi o tempo necessário para me ambientar e abrir minha própia escola de música. Casei, nasceram meus filhos, regi diversos corais, fiz trabalhos de gravação, produção etc. que sustentaram a mim e minha família por 15 anos, até o momento em que meus filhos se aproximaram da idade limite para entrar em Conservatórios oficiais na europa, meu verdadeiro sonho.

Dos ENTA em diante:
Que sonho! A quem poderia contar sem ser imediatamente internado em um hospício? Bem, de vez em quando penso que nossos caminhos nesta vida têm algo de misterioso. Por pelo menos dois anos pesquisei, estudei e troquei informações com pessoas e amigos espalhados pelo mundo. Porém, fatos aconteceram em uma sequência impressionante que conduziram ao ponto, como, por exemplo, um maestro italiano que viu o site da minha escola na Internet e me visitou em Fortaleza. Um intercâmbio de informações musicais teve início e se concluiu com minha vinda para a Itália.

No coração de Fortaleza: Praia de Iracema

Outros fatos mais interessantes ainda, que pela inexplicável sequência chamo de "milagres", contarei, se tiver tempo, em um livro.

Vendi nossa casa em fase final de construção, nossos carros e tralhas. Me despedi dos meus alunos e grupos pedindo um prazo de 6 meses de tolerância. Se eu não voltasse nesse tempo, estariam livres para me defenestrar. Parti.

Despedida da família no aeroporto de Fortaleza.
O ratinho na mão da minha filha é um ser vivo.

Teminado o intercâmbio, era hora de voltar, mas eu não queria voltar. Fazer o que em Fortaleza que nem Conservatório tem? Não! A cidade me ofereceu o máximo profissionalmente, sou grato, porém, conhecendo a realidade musical local e chutando longe a modéstia, retribuí muito bem. Quite, era chegado o momento de virar página, encerrar etapa e seguir adiante.

Assim, com mais de 40 anos de idade e dois filhos pequenos, era preciso iniciar DA CAPO. Por sorte, minha companheira tem espírito aventureiro como o meu e topou enfrentar a nova realidade com muito suor e trabalho, cujos detalhes estarão também no livro, pois os primeiros 2 anos em país estranho são trituradores de nervos e vísceras. Sem conhecer absolutamente ninguém, enfrentamos Roma com as nossas economias em Real, que, quando convertidas em Euro, valiam 3x menos na época. Outra sequência de fatos incríveis aconteceram. Enquanto os contatos de religiosos católicos que trouxemos depois de anos de trabalho voluntário em paróquias no Brasil pouco ou nada serviram, encontramos, por absoluto acaso, pessoas certas (algumas sem religião) que nos conduziram pelos caminhos certos. Coincidência? Destino? Sorte? Sei lá! Sei apenas que continuo amando a Igreja, independente dos seres humanos que nela estão inseridos.

Chegada da família em Roma

Passado esse tempo de prova fomos entendendo a dinâmica, o funcionamento da mente nativa e, como é característico do ser humano, ocorreu, no nosso caso, a adaptação.

Ah! E o sonho?! Pois é. Realizado em 2007. Não. Não foi apenas um sonho realizado. Foram vários!

Tudo bem, o primeiro e mais importante foi este pelo qual saí do Brasil, mas nunca contei antes a ninguém. Até mesmo minha mulher só soube quando já estava na Itália. Não queria me divorciar dela como louco varrido, pois ela me conheceu apenas como louco.

 
Meu filho no Coro Cappella Sistina - Vaticano


Mas teve mais. Em menos de 3 anos na Itália, eu e Marta conseguimos o que não conseguimos em mais de 40 no Brasil: emprego a tempo indeterminado com carteira assinada, férias, estabilidade, assistência sanitária e todos os direitos que tornam dignos os seres humanos. Os bens materiais já recuperamos praticamente todos, alguns até de melhor qualidade. No Brasil eu tinha bons trabalhos, mas, como profissional liberal, se não trabalhasse, não comia. Não podia adoecer nunca! Férias? Nem pensar! Não culpo o país. Culpo a mim, que não tive QI (intelectual e político) para focar a vida, pois sempre a vi através das lentes multifocais dos meus óculos. Achei que seria pouco conhecer apenas notas musicais. Gosto de Freud e das técnicas da Psicanálise, dos esquemas CPM-PERT de Administração. Mas precisava estudar tanto para isso? Tenho um saco repleto de diplomas que pouco ou nada serviram para ganhar dinheiro. O melhor de todos, por incrível que pareça, foi e ainda é o de MÚSICO. Verdade! As vezes que me ofereceram trabalho em departamento de RH como Psicólogo, o salário era menor que o de Maestro de Coro e com muito mais horas. Tem lógica. A oferta do primeiro profissional é maior que a demanda. Dou um exemplo. Psicólogo: 8 horas por dia, 5 dias por semana, salário X. Maestro: 2 ensaios por semana com duração de 1 hora e 1/2, salário 2X. Tenho isso registrado na minha carteira de trabalho.

Este ano, entretanto, depois de realizados todos esses sonhos, adoeci. O que houve entre meu cérebro e meu corpo? Me apresentaram a conta de uma vida desregrada? Talvez o primeiro tenha feito a seguinte pergunta: E agora, acabou? O segundo deve ter respondido que sim. Está um pouco velho e cansado. Calma lá! Id, Ego e Superego, vamos reorganizar as coisas. Tenho 47 anos e novos sonhos!

A pergunta final: VALE A PENA SONHAR E TENTAR REALIZAR OS SONHOS? A resposta clichê é: "Sim, claro! Sempre!" A minha é DEPENDE.

1. Eu mudei de país porque tinha documentos em ordem e podia usufruir de todos os direitos como cidadão italiano. Sem isso, recomendo pensar 1000 vezes antes de mudar estrada e território. Como diria Rita Lee, é preciso investir em know-how e apostar no background. Ambos não me fizeram rico, mas facilitaram a realização dos meus sonhos.

2. Para tornar real um sonho, como São Pedro, será necessário caminhar sobre as águas, mas sem perder a fé. A minha foi mística e também no fruto de uma vida de trabalho depositado na conta bancária (poupança). Ambas ajudaram muito!

3. A linha que divide o sonho do pesadelo é tênue. É preciso um belo saco escrotal caso ela se rompa.

Não posso dizer que tive uma vida repleta de grandes emoções. Cada fase que citei é cheia de detalhes que não cabem aqui, mas que pretendo contar caso realmente escreva o livro. Eles sim, fizeram valer a pena cada momento vivido com felicidade que, aliás, cometeria um grande pecado se dissesse que não a conheço. Procurei dividir um pouco em trabalhos voluntários com quem achava que valia a pena, mas acho, hoje, que faltou e falta dividir mais.

Enfim, alguém disse alguma vez, em algum lugar, que ninguém pede para nascer, nem sabe a hora que vai morrer, logo, o importante é aproveitar o intervalo. Isso eu fiz relativamente bem e farei até fechar a cortina.

ITÁLIA: 2006 - 2010

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

JARDINS DA BABILÔNIA

"Tem gente que pensa que todo artista é rico. Numa época eu até fui, mas fumei, cheirei e bebi tudo. Hoje moro no mato e 'trampo' para pagar as contas", escreveu Rita no Twitter. (Folha Online - 24/08/2010). Cigarras... dificilmente serão formigas, mesmo quando param de cantar, afinal, quem nasceu pra lagartixa nunca chega a jacaré. A recíproca não é verdadeira.

São as águas de agosto fechando o verão acima do equador
É a promessa de vida no meu coração...

Hoje uma amiga paraense que mora nos EEUU conversou comigo pelo MSN. Disse que esteve recentemente em Belém e pagou R$ 5,00 por 2 mangas. O trânsito, a violência, o preço das coisas, tudo assusta. O Conservatório Carlos Gomes está caindo aos pedaços. Que triste... A turma do SAM (Serviço de Atividades Musicais da UFPa.), segundo ela, está melhor. Se bem me lembro, sempre esteve. Federal, né?

A Fundação Carlos Gomes... a Fundação... funda... são poucos. De vez em quando um cruzeiro pela Europa renova o talento dos privilegiados.

Como assim R$ 5,00 por 2 mangas? Elas caem na cabeça da gente em Belém! Pior é saber que a melancia, o melão, as bananas e outras frutas tropicais de excelente qualidade que comprei com a Marta hoje no supermercado, em Roma, pagando, no total, € 8,00, são importadas quase todas da África e da América Latina, incluindo, claro, o Brasil. O salário mínimo aqui é pelo menos 3x o brasileiro. Mas a culpa é da Rita Lee, maloqueira!

Bem, pelo menos o Tiririca é candidato a Deputado Federal por São Paulo. O Brasil sempre foi governado por homens sérios, sóbrios, poliglotas, eloquentes, intelectuais, elegantes, ricos, bonitos, com afetado ar aristrocrático, inglês. Mais de 500 anos se passaram e o país continua uma república de tiriricas.

Lula inaugurou a era do Brasil diante do espelho, mas, como M. Jackson, com o tempo, também demonstrou um sonho de sangue azul. É o fim da picada da tal mosca do poder.

Tiririca Dorian Gray: Um quadro que brasileiro não consegue olhar, pois vê o quanto está velho como povo, moribundo e com uma enorme bola vermelha na ponta do nariz. Pior do que está não fica. Piada? Pois sim! Tem honorável ladrão com a "ficha limpa" pedindo voto. E vai se eleger!!!

Neste Diário, lamento pelo Conservatório. Pensei que depois de tanto tempo e investimento estariam ali hoje grandes mestres, excelentes cursos, intercâmbios, orquestras... observadas as devidas proporções, mais ou menos como a Accademia Belle Arti de Roma. Passei lá com minha filha que pensa, no futuro, em ser aluna. Incrível!

Me resta nada além de continuar acreditando que o Brasil vai! Espero apenas que não para o brejo.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

MEMUS

MEMÓRIA MUSICAL - MEMUS

Este é o nome de um joguinho que inventei para meus alunos. A primeira versão era em papelão desenhado com caneta colorida e se jogava na mesa ou no chão. Depois, tentei passar para computador e consegui apenas o primeiro nível. No total são 7 níveis: Clave de Sol, 2 Claves de Fá e as 4 Claves de Dó.

Gosto muito de informática, mas meu conhecimento de programação é limitado. Tentei encontrar quem soubesse mais do eu e pudesse encarar o joguinho como um projeto de criação, mas eu morava no Brasil. Talvez na américa de cima eu tivesse até, quem sabe, ganhado um dinheirinho. Tudo bem. Digamos que a alegria da molecada jogando e aprendendo tenha compesado o esforço. Filantropia... ufa!

Funciona assim:

1. 20 cartas na tela, sendo 10 pares:

2. Os pares apresentados aos jogadores:

3. Cartas embaralhadas:

4. Par correto:

5. Par errado:
 

6. Manual de Instrução:
 

Detalhe: Cada carta de uma nota na Clave de Sol, quando virada, emite, com som de Piano, a nota correspondente, afinada com diapasão A=440Hz.

A idéia era que, após a Clave de Sol, os jogadores pudessem ir acrescentando as demais Claves, até chegar ao último nível. Cada Clave teria uma cor diferente e as cartas com o nome das notas teriam, no canto superior, o desenho da clave com qual fariam par.

10 anos de Conservatório me incetivaram a procurar caminhos para uma educação musical divertida, afinal, da turma de 40 alunos da qual fiz parte, só dois terminaram o curso. O MEMUS foi uma dessas tentativas. Ainda está no meu computador. O arquivo é leve. Quem quiser, basta pedir. GRÁTIS!

domingo, 22 de agosto de 2010

VIKRAM SETH


Passeando em um centro comercial de Roma, entrei em uma livraria e descobri por acaso o autor deste livro que li no início de 2010. São 462 páginas de uma interessante história, cujo resumo da contracapa segue abaixo em uma tradução livre do italiano, feita por mim.

O amor pela música, a música do amor. Um encontro casual em um ônibus de Londres, uma carta que não deveria ser lida, uma pianista com um segredo que toca o coração da sua música. E, ainda, a procura de um raro quinteto de cordas de Beethoven e um violino amado com obsessão, mas nunca possuído... Depois de "Il ragazzo giusto", Vikram Seth nos prende ainda com um romance que é ao mesmo tempo uma história de amor, intensa e atormentada, e uma meditação profunda sobre a música (e sobre ser musicista) e como a paixão por esta arte possa se transformar no tema dominante e constante de toda uma vida. Brilhante e envolvente, tocante e refinado, este romance confirma o extraordinário talento narrativo de Vikram Seth: a sua capacidade de criar, através de uma multiplicidade de detalhes, ilusões da vida e de fascinar o leitor até a última página.

"Vikram Seth sabe criar um universo sedutor e inesquecível que ressoa muito depois de lida a última página." (Sunday Telegraph)

Vikram Seth nasceu em Calcutá em 1952. Depois de haver estudado Economia na Standford University, viajou muito, passando longos períodos na Inglaterra, Califórnia, India e China. Publicou "The Golden Gate" (1986), romance em versos concebidos como homenagem a "Evgenij Onegin", di Puskin, "Autostop per l'Himalaya" (1983) e, com Longanesi, além de "Una musica costante" (1999), "Il ragazzo giusto" (1993), o romance que o fez obter atenção da crítica e do público internacional, e "Due vite" (2006).

Li "Una musica costante", gostei, recomendo, inclusive a receita da página 377 (versão italiana) de cerejas amarelas congeladas no "freezer" e descongeladas no microondas em 30 segundos. Delícia!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

HINO DE ÓBIDOS

Peço licença aos obidenses para o que segue.

Há tempos, cutucado por uma brincadeira de um grande amigo espoca-bode, o Francisco Mileo, tenho pensado musicalmente no Hino de Óbidos, cidade que aprendi a amar. Diz o Chiquinho, pessoa de humor inteligente e excelente formação acadêmica, que o refrão do Hino cantado é: “Ó, Bidus!”, a Sayão e um personagem de história em quadrinhos do Mauricio de Sousa (Turma da Mônica).

Particularmente, acho o Hino obidense muito bonito. Uma bela inspiração de um grande Poeta o qual respeito e não ouso profanar a obra, razão pela qual escrevo.

Sem grandes pretensões, mas apenas como homenagem, gostaria de gravar um vídeo com imagens da cidade tendo como trilha sonora o instrumental do Hino com a letra legendada. Para isso, preciso ter certeza do texto.

Entrei em contato privadamente com o Luiz Arthur, herdeiro principalmente do talento do autor do Hino, Poeta Saladino de Brito, que se mostrou disponível para ajudar no que fosse preciso.

Trocamos algumas figurinhas. Enviei para ele um arquivo com o esboço do instrumental (que inclusive esta disponível no Portal), uma cartilha sobre o Hino Nacional e minhas dúvidas em relação ao texto.

A cartilha sobre o Hino Nacional foi idealizada e lançada em Fortaleza pelo Distrito LA-4, do Lions Club, do qual regi o Coral por 10 anos. Traz uma completa explicação da letra do Hino Nacional frase por frase, estrofe por estrofe, afinal, muitos cantam, mas poucos compreendem o que estão cantando. “Do que a terra mais garrida”, por exemplo. As pessoas decoram e repetem sem entender, mais ou menos como fazem os psitacídeos.

Agora, com a presença da A.A.L.O. em Óbidos, pensei que talvez se pudesse criar uma cartilha como essa, contendo os 3 hinos, Nacional, Estadual e Municipal, devidamente explicados para distribuição gratuita nas escolas. Também para este escopo a letra do Hino de Óbidos deve estar revisada, pois, como acontece no Hino Nacional, um simples acento indicador de crase pode mudar totalmente o sentido de uma frase. Exemplo: OUVIRAM DO IPIRANGA AS MARGENS PLÁCIDAS e OUVIRAM DO IPIRANGA ÀS MARGENS PLÁCIDAS. Não são poucas as letras impressas do Hino Nacional com esse problema, inclusive algumas timbradas como “oficiais”. No primeiro caso, sem crase, quem ouve são as margens. No segundo, quem estava nas margens do rio. De acordo com alguns estudiosos, entre os quais o Prof. Pasquale, a primeira forma é a correta, conforme escrita pelo autor da letra, Joaquim Osório Duque Estrada.

A palavra ÓBIDOS é proparoxítona. Não é fácil cantar proparoxítonas. Na Igreja, geralmente “EsPÍrito” vira “EspiRÍtu” ou “EspiriTÚ”. São poucas proparoxítonas na língua portuguesa. A coisa é tão complicada que Chico Buarque fez desse desafio uma obra-prima jogando com elas na música CONSTRUÇÃO:

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

O valor está principalmente em fazer coincidir o tempo forte da música com a silaba forte da palavra, conhecida como Prosódia musical. 1. Mús. Ajuste das palavras à música e vice-versa, a fim de que o encadeamento e a sucessão das sílabas fortes e fracas coincidam, respectivamente, com os tempos fortes e fracos dos compassos. (Dicionário Aurélio Século XXI)

No caso do Hino de Óbidos, alguns pequenos problemas de prosódia são perfeitamente fáceis de resolver. No refrão, basta cantar ÓBIDOS de uma vez, como se tomasse um susto: ÓBIDOS!, uma pequena pausa, “és minha terra” etc. “Óbidos, estás inteiRÁ” basta aumentar o tempo da pausa e dizer a segunda parte de uma vez: “estás inTEIra”. Na última estrofe, “és rincão da teRRÁ brasileira” se resolve cantando “és rincão - pequena pausa - da TErra brasileira”. Essas sutis alterações estão no arquivo instrumental (e experimental) que eu fiz e o Luiz Arthur disponibilizou no Portal.

Até aqui não foi alterada uma virgula no texto original. O problema maior vem agora. Com o passar do tempo, mais ou menos como naquela brincadeira do telefone sem fio, algumas letras vão sendo trocadas, outras omitidas e outras acrescentadas.

No vídeo que gravei com o Hino de Sant’Ana me veio a dúvida: FOSTE ou FOSTES PREFERIDA. Muito comum esse tipo de confusão. Pior, só encontrei um apoio para opção que escolhi: ROGAI POR NOS. Fiquei com FOSTES (VÓS). Espero ter acertado.



Lendo a poesia disponível no Portal e tentando entender a letra, não tenho certeza, mas me parece que isso também se deu com o Hino de Óbidos. Posso estar totalmente enganado e, se estiver, desde já, apresento meu pedido de desculpa. Arrisquei, na minha infinita ignorância, revisar e organizar o texto que resultou assim:

HINO DE ÓBIDOS
Letra e Música: Saladino de Brito
Lei No 2.600 de 27 de Junho de 1974

Sentinela que guarda a riqueza / desse vale imenso, sem par,
Podes bem ser chamada Princesa / das belezas do grande Rio-Mar.
Os teus filhos são bem brasileiros, / são valentes e sabem lutar.
E trabalham ao sol altaneiros, / sempre avante, não sabem parar!

Óbidos, és minha terra! / Óbidos, és meu torrão!
Óbidos, estás inteira / dentro do meu coração!

Já tens glórias passadas que a História / podes bem com justiça assentar.
Não são gestos falazes da vitória / que soubeste tão bem conquistar.
És a filha do Rio Amazonas / e conheces o seu murmurar:
Onde estás é a única zona / por onde ele tem que passar.

Óbidos, és minha terra! / Óbidos, és meu torrão!
Óbidos, estás inteira / dentro do meu coração!

Tuas noites são bem estreladas / e o teu céu é o mais puro azul.
E são claras as tuas madrugadas / quando sopra o vento taful.
És rincão da terra brasileira, / na Amazônia és forte e viril.
Vives sob a mesma bandeira / que tremula em todo o Brasil.

Óbidos, és minha terra! / Óbidos, és meu torrão!
Óbidos, estás inteira / dentro do meu coração!



Como sou nada, sou ninguém, para piorar, nasci em Belém e não tenho nenhuma autoridade intelectual para tamanha ousadia, passo a bola para os obidenses que, tenho certeza, poderão realizar um profundo estudo desse belo Hino e, assim, contribuir para que as gerações futuras o cantem mais e melhor. Ou deixamos tudo como está e mandamos o Chiquinho espocar o bode dele lá em Oriximiná que, aliás, tem Hino? (brincadeira... um abraço ao povo de Oriximiná!).

No meu arquivo instrumental fiz também qualquer alteração na HARMONIA, mas respeitei totalmente a MELODIA, pois essa, como a LETRA, é propriedade intelectual do Poeta Saladino de Brito e ambas devem ser tratadas com o máximo respeito.

Encerro pedindo apenas que se alguém se interessar por este assunto entre em contato comigo e me ajude a produzir um belo vídeo para a nossa bela ÓBIDOS.

Obrigado!

------------------------------

Nota: Este texto foi publicado na Internet no início de 2010. Não tendo recebido material visual, resolvi editar o video cujo resultado ficou assim por enquanto, até o dia que eu vistar Óbidos outra vez.

quarta-feira, 10 de março de 2010

CIRANDAS IRADAS

17/11/2009. 50 anos da morte do compositor Heitor Villa-Lobos. Aconteceram no Brasil alguns eventos lembrando a data, mas não sei se suficientes para a importância do artista. O Brasil deveria respirar Villa-Lobos como a Áustria respira Mozart e a Rússia respira Tchaikovsky.

Alguém conhece uma Rua Villa-Lobos? Em Belém, se ainda não caiu, tem um edifício com esse nome, vizinho a outro chamado Ernesto Nazareth.

Os americanos acham que quem inventou o avião foram os irmãos Wright. Os italianos aprendem que foi Leonardo da Vinci. Nós, brasileiros, juramos que foi Santos Dumont. Mas como gritar isso ao mundo se pouco ou quase nada se faz no Brasil para reforçar a tese? Em Fortaleza tem uma avenida com o nome dele. No RJ, um aeroportozinho de segunda. Mais alguma coisa? Não lembro.

Aproveitando que meu texto anterior era sobre folclore e músicas infantis, enquanto alguns “modernosos” reinventam a roda, o modernista Villa-Lobos encanta o mundo com as Cirandas. Nos links abaixo está o gringo fazendo uso delas. No primeiro, é clicar e ouvir “Nesta Rua, Nesta Rua, Ciranda #11, VIlla-Lobos, Fred Sturm, Piano”. Ao lado, a informação complementar: The 11th of the 16 Cirandas of Villa-Lobos, based on Brazilian children's songs. Live performance at the University of New Mexico, Keller Hall, 8/29/09.


No segundo, Terezinha de Jesus.


Abaixo, a capa de um CD gravado pelo Coro Infantil do Teatro Municipal do Rio de Janeiro: Villa-Lobos para Crianças. Tocou na TV e no rádio? Então, quais crianças ouviram? Dos banqueiros patrocinadores, talvez. Bem, além delas e das que integram o Coro, pelo menos mais duas: as minhas.


O repertório desse belíssimo trabalho:

01-O Castelo
02-Co,Co,Co
03-Carneirinho,Carneirão
04-Machadinha
05-Pai Francisco
06-Rosa Amarela
07-Que Lindos Olhos
08-Vida formosa
09-Samba Le Le
10-Constante
11-Ó Sim
12-A Cotia
13-Bela Pastora
14-Na Corda Da Viola
15-O Anel
16-Capelinha De Melão
17-Cai Cai Balão
18-Sapo Jururu
19-Caranguejo
20-A Gatinha Parda
21-Formiguinhas
22-Candeeiro
23-Nesta Rua Tem Um Bosque
24-Anquinhas
25-O Cravo Brigou Com A Rosa
26-Terezinha De Jesus
27-Nigue-Ninhas
28-Viuvinha Da Banda D Alem
29-Senhora Viúva, Viuvinha
30-Ó Limão
31-Meu Benzinho
32-Na Mão Direita
33-Uma, Duas Angolinhas

Basta. Deixo eu também as crianças em paz, afinal, como diz o resto da canção, “sou apenas um tijolo na parede”.

Falando nisso, a Maestrina Bianca Almeida, do Coral Vida e Luz, de Goiás, me enviou e-mail informando que meu texto “Laissez-Faire” está em lista de discussão virtual de regentes, coralistas e músicos na Internet. É isso. Tomara esse tijolo ajude na construção de qualquer parede.

Em tempo de Quaresma, quero, porém, terminar lembrando exatamente que, por mais forte que seja, um dia a casa cai. Está escrito: “Não ficará pedra sobre pedra”. Não tem coisa melhor na vida que a igualdade da morte. Do “jornalista” no fundo da arrogância ao lixeiro no alto da vassoura, a morte iguala tudo na horizontal. Tem poucas coisas boas no envelhecer. Uma delas é ir, gradualmente, se liberando das máscaras, voluntariamente ou com pequena ajuda da natureza.

Que lembrem disso os culpados pelos que estão, como Mozart, nas valas comuns do Haiti. Como nos velhos tempos das rádios, ofereço a esses distintos senhores, do próprio Wolfgang, DIES IRAE. Um dia não haverá sol. É uma estrela. Vai apagar. Tudo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

HEY, LEAVE THE KIDS ALONE!

Este mundão é mesmo divertido.

Quando eu fazia estágio em Psicologia Escolar em uma escola “construtivista” em Fortaleza, ouvi, pela primeira vez, crianças cantando tradicionais cantigas-de-roda com letras alteradas.  Depois, vi na Internet alguns textos detonando o repertório infantil brasileiro. Tudo bem, tudo certo se tais análises tivessem como autores conceituados estudiosos do comportamento infantil. Que nada! A inspiração vinha das famosas apresentadoras de programas infantis da TV brasileira, uma mais competente que a outra na arte de transformar pequenos seres humanos inteligentes em imbecis robotizados. Então, não se pode atirar o pau no gato, nem o cravo pode brigar com a rosa. Ai, meus sais...

Fui catar nas minhas velharias todos os discos coloridos que tinham gerado a trilha sonora da minha infância e transformei tudo em CD para meus filhos. Que maravilha!

 

A Festa no Céu, uma historinha contada em forma de poesia, com rimas perfeitas e música de qualidade. Escravos de Jó, Pai Francisco, Lili, A canoa virou e tantas outras recuperadas e passadas para meus filhos que, enquanto pude, orientei a fuga da TV ordinária.

Na minha infância sempre cantei e brinquei ao som de todas essas músicas e nunca, motivado por elas, matei nenhum gato nem maltratei qualquer outro animal.

A música não era eletrônica. Tinha orquestra de verdade e uma das assinaturas era de ninguém menos que Radamés Gnatalli.

Os “Disquinhos” (nome original) eram assim:

 

Não sou saudosista e não acho que “meu tempo” era melhor que o tempo dos meus filhos. Era o meu tempo e acabou. Eles ouviram o repertório que eu digitalizei, gostaram, mas a realidade deles é diferente. Não existe mais brincadeira de roda na rua. Eles têm Nintendo DSi, computador, Internet, cinema 3D e outras geringonças do século XXI, nem melhores ou piores que as que eu tive. Apenas diferentes. Uma coisa é certa: estão anos-luz de mim quando tinha a mesma idade.

Antes de sair do Brasil doei meus “Disquinhos” para o Museu da Imagem e do Som (MIS) de Fortaleza. Lá estão conservados em ambiente refrigerado 24 horas por dia, foram restaurados e podem ser escutados por quem se interessar.

Aos queridos professores “destrutivistas”, um pedido: Parem com isso! Se não convém mais “atirar o pau no gato”, sejam criativos e inventem outras letras e músicas, mas não façam Piaget revirar no túmulo com Villa-Lobos. Não toquem na herança folclórica do país, pois isso não fará dos seus pupilos cidadãos melhores, mas apenas sem memória histórica. E quando eles descobrirem isso, vão atirar o pau não no gato, mas em vocês!

Assistam Pedro e o Lobo, uma história infantil contada através da música. Foi composta por Sergei Prokofiev em 1936, com o objetivo pedagógico de mostrar às crianças as sonoridades dos diversos instrumentos. Cada personagem da história (o Pedro, o lobo, o avô, o passarinho, a pata, o gato e os caçadores) é representada por um instrumento diferente.

 

Para concluir, escutem Pink Floyd:

We don't need no education
We dont need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers leave them kids alone
Hey! Teachers, leave them kids alone!
All in all it's just another brick in the wall
All in all you're just another brick in the wall


Por favor, deixem as crianças em paz!