segunda-feira, 23 de agosto de 2010

MEMUS

MEMÓRIA MUSICAL - MEMUS

Este é o nome de um joguinho que inventei para meus alunos. A primeira versão era em papelão desenhado com caneta colorida e se jogava na mesa ou no chão. Depois, tentei passar para computador e consegui apenas o primeiro nível. No total são 7 níveis: Clave de Sol, 2 Claves de Fá e as 4 Claves de Dó.

Gosto muito de informática, mas meu conhecimento de programação é limitado. Tentei encontrar quem soubesse mais do eu e pudesse encarar o joguinho como um projeto de criação, mas eu morava no Brasil. Talvez na américa de cima eu tivesse até, quem sabe, ganhado um dinheirinho. Tudo bem. Digamos que a alegria da molecada jogando e aprendendo tenha compesado o esforço. Filantropia... ufa!

Funciona assim:

1. 20 cartas na tela, sendo 10 pares:

2. Os pares apresentados aos jogadores:

3. Cartas embaralhadas:

4. Par correto:

5. Par errado:
 

6. Manual de Instrução:
 

Detalhe: Cada carta de uma nota na Clave de Sol, quando virada, emite, com som de Piano, a nota correspondente, afinada com diapasão A=440Hz.

A idéia era que, após a Clave de Sol, os jogadores pudessem ir acrescentando as demais Claves, até chegar ao último nível. Cada Clave teria uma cor diferente e as cartas com o nome das notas teriam, no canto superior, o desenho da clave com qual fariam par.

10 anos de Conservatório me incetivaram a procurar caminhos para uma educação musical divertida, afinal, da turma de 40 alunos da qual fiz parte, só dois terminaram o curso. O MEMUS foi uma dessas tentativas. Ainda está no meu computador. O arquivo é leve. Quem quiser, basta pedir. GRÁTIS!

domingo, 22 de agosto de 2010

VIKRAM SETH


Passeando em um centro comercial de Roma, entrei em uma livraria e descobri por acaso o autor deste livro que li no início de 2010. São 462 páginas de uma interessante história, cujo resumo da contracapa segue abaixo em uma tradução livre do italiano, feita por mim.

O amor pela música, a música do amor. Um encontro casual em um ônibus de Londres, uma carta que não deveria ser lida, uma pianista com um segredo que toca o coração da sua música. E, ainda, a procura de um raro quinteto de cordas de Beethoven e um violino amado com obsessão, mas nunca possuído... Depois de "Il ragazzo giusto", Vikram Seth nos prende ainda com um romance que é ao mesmo tempo uma história de amor, intensa e atormentada, e uma meditação profunda sobre a música (e sobre ser musicista) e como a paixão por esta arte possa se transformar no tema dominante e constante de toda uma vida. Brilhante e envolvente, tocante e refinado, este romance confirma o extraordinário talento narrativo de Vikram Seth: a sua capacidade de criar, através de uma multiplicidade de detalhes, ilusões da vida e de fascinar o leitor até a última página.

"Vikram Seth sabe criar um universo sedutor e inesquecível que ressoa muito depois de lida a última página." (Sunday Telegraph)

Vikram Seth nasceu em Calcutá em 1952. Depois de haver estudado Economia na Standford University, viajou muito, passando longos períodos na Inglaterra, Califórnia, India e China. Publicou "The Golden Gate" (1986), romance em versos concebidos como homenagem a "Evgenij Onegin", di Puskin, "Autostop per l'Himalaya" (1983) e, com Longanesi, além de "Una musica costante" (1999), "Il ragazzo giusto" (1993), o romance que o fez obter atenção da crítica e do público internacional, e "Due vite" (2006).

Li "Una musica costante", gostei, recomendo, inclusive a receita da página 377 (versão italiana) de cerejas amarelas congeladas no "freezer" e descongeladas no microondas em 30 segundos. Delícia!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

HINO DE ÓBIDOS

Peço licença aos obidenses para o que segue.

Há tempos, cutucado por uma brincadeira de um grande amigo espoca-bode, o Francisco Mileo, tenho pensado musicalmente no Hino de Óbidos, cidade que aprendi a amar. Diz o Chiquinho, pessoa de humor inteligente e excelente formação acadêmica, que o refrão do Hino cantado é: “Ó, Bidus!”, a Sayão e um personagem de história em quadrinhos do Mauricio de Sousa (Turma da Mônica).

Particularmente, acho o Hino obidense muito bonito. Uma bela inspiração de um grande Poeta o qual respeito e não ouso profanar a obra, razão pela qual escrevo.

Sem grandes pretensões, mas apenas como homenagem, gostaria de gravar um vídeo com imagens da cidade tendo como trilha sonora o instrumental do Hino com a letra legendada. Para isso, preciso ter certeza do texto.

Entrei em contato privadamente com o Luiz Arthur, herdeiro principalmente do talento do autor do Hino, Poeta Saladino de Brito, que se mostrou disponível para ajudar no que fosse preciso.

Trocamos algumas figurinhas. Enviei para ele um arquivo com o esboço do instrumental (que inclusive esta disponível no Portal), uma cartilha sobre o Hino Nacional e minhas dúvidas em relação ao texto.

A cartilha sobre o Hino Nacional foi idealizada e lançada em Fortaleza pelo Distrito LA-4, do Lions Club, do qual regi o Coral por 10 anos. Traz uma completa explicação da letra do Hino Nacional frase por frase, estrofe por estrofe, afinal, muitos cantam, mas poucos compreendem o que estão cantando. “Do que a terra mais garrida”, por exemplo. As pessoas decoram e repetem sem entender, mais ou menos como fazem os psitacídeos.

Agora, com a presença da A.A.L.O. em Óbidos, pensei que talvez se pudesse criar uma cartilha como essa, contendo os 3 hinos, Nacional, Estadual e Municipal, devidamente explicados para distribuição gratuita nas escolas. Também para este escopo a letra do Hino de Óbidos deve estar revisada, pois, como acontece no Hino Nacional, um simples acento indicador de crase pode mudar totalmente o sentido de uma frase. Exemplo: OUVIRAM DO IPIRANGA AS MARGENS PLÁCIDAS e OUVIRAM DO IPIRANGA ÀS MARGENS PLÁCIDAS. Não são poucas as letras impressas do Hino Nacional com esse problema, inclusive algumas timbradas como “oficiais”. No primeiro caso, sem crase, quem ouve são as margens. No segundo, quem estava nas margens do rio. De acordo com alguns estudiosos, entre os quais o Prof. Pasquale, a primeira forma é a correta, conforme escrita pelo autor da letra, Joaquim Osório Duque Estrada.

A palavra ÓBIDOS é proparoxítona. Não é fácil cantar proparoxítonas. Na Igreja, geralmente “EsPÍrito” vira “EspiRÍtu” ou “EspiriTÚ”. São poucas proparoxítonas na língua portuguesa. A coisa é tão complicada que Chico Buarque fez desse desafio uma obra-prima jogando com elas na música CONSTRUÇÃO:

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

O valor está principalmente em fazer coincidir o tempo forte da música com a silaba forte da palavra, conhecida como Prosódia musical. 1. Mús. Ajuste das palavras à música e vice-versa, a fim de que o encadeamento e a sucessão das sílabas fortes e fracas coincidam, respectivamente, com os tempos fortes e fracos dos compassos. (Dicionário Aurélio Século XXI)

No caso do Hino de Óbidos, alguns pequenos problemas de prosódia são perfeitamente fáceis de resolver. No refrão, basta cantar ÓBIDOS de uma vez, como se tomasse um susto: ÓBIDOS!, uma pequena pausa, “és minha terra” etc. “Óbidos, estás inteiRÁ” basta aumentar o tempo da pausa e dizer a segunda parte de uma vez: “estás inTEIra”. Na última estrofe, “és rincão da teRRÁ brasileira” se resolve cantando “és rincão - pequena pausa - da TErra brasileira”. Essas sutis alterações estão no arquivo instrumental (e experimental) que eu fiz e o Luiz Arthur disponibilizou no Portal.

Até aqui não foi alterada uma virgula no texto original. O problema maior vem agora. Com o passar do tempo, mais ou menos como naquela brincadeira do telefone sem fio, algumas letras vão sendo trocadas, outras omitidas e outras acrescentadas.

No vídeo que gravei com o Hino de Sant’Ana me veio a dúvida: FOSTE ou FOSTES PREFERIDA. Muito comum esse tipo de confusão. Pior, só encontrei um apoio para opção que escolhi: ROGAI POR NOS. Fiquei com FOSTES (VÓS). Espero ter acertado.



Lendo a poesia disponível no Portal e tentando entender a letra, não tenho certeza, mas me parece que isso também se deu com o Hino de Óbidos. Posso estar totalmente enganado e, se estiver, desde já, apresento meu pedido de desculpa. Arrisquei, na minha infinita ignorância, revisar e organizar o texto que resultou assim:

HINO DE ÓBIDOS
Letra e Música: Saladino de Brito
Lei No 2.600 de 27 de Junho de 1974

Sentinela que guarda a riqueza / desse vale imenso, sem par,
Podes bem ser chamada Princesa / das belezas do grande Rio-Mar.
Os teus filhos são bem brasileiros, / são valentes e sabem lutar.
E trabalham ao sol altaneiros, / sempre avante, não sabem parar!

Óbidos, és minha terra! / Óbidos, és meu torrão!
Óbidos, estás inteira / dentro do meu coração!

Já tens glórias passadas que a História / podes bem com justiça assentar.
Não são gestos falazes da vitória / que soubeste tão bem conquistar.
És a filha do Rio Amazonas / e conheces o seu murmurar:
Onde estás é a única zona / por onde ele tem que passar.

Óbidos, és minha terra! / Óbidos, és meu torrão!
Óbidos, estás inteira / dentro do meu coração!

Tuas noites são bem estreladas / e o teu céu é o mais puro azul.
E são claras as tuas madrugadas / quando sopra o vento taful.
És rincão da terra brasileira, / na Amazônia és forte e viril.
Vives sob a mesma bandeira / que tremula em todo o Brasil.

Óbidos, és minha terra! / Óbidos, és meu torrão!
Óbidos, estás inteira / dentro do meu coração!



Como sou nada, sou ninguém, para piorar, nasci em Belém e não tenho nenhuma autoridade intelectual para tamanha ousadia, passo a bola para os obidenses que, tenho certeza, poderão realizar um profundo estudo desse belo Hino e, assim, contribuir para que as gerações futuras o cantem mais e melhor. Ou deixamos tudo como está e mandamos o Chiquinho espocar o bode dele lá em Oriximiná que, aliás, tem Hino? (brincadeira... um abraço ao povo de Oriximiná!).

No meu arquivo instrumental fiz também qualquer alteração na HARMONIA, mas respeitei totalmente a MELODIA, pois essa, como a LETRA, é propriedade intelectual do Poeta Saladino de Brito e ambas devem ser tratadas com o máximo respeito.

Encerro pedindo apenas que se alguém se interessar por este assunto entre em contato comigo e me ajude a produzir um belo vídeo para a nossa bela ÓBIDOS.

Obrigado!

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Nota: Este texto foi publicado na Internet no início de 2010. Não tendo recebido material visual, resolvi editar o video cujo resultado ficou assim por enquanto, até o dia que eu vistar Óbidos outra vez.

quarta-feira, 10 de março de 2010

CIRANDAS IRADAS

17/11/2009. 50 anos da morte do compositor Heitor Villa-Lobos. Aconteceram no Brasil alguns eventos lembrando a data, mas não sei se suficientes para a importância do artista. O Brasil deveria respirar Villa-Lobos como a Áustria respira Mozart e a Rússia respira Tchaikovsky.

Alguém conhece uma Rua Villa-Lobos? Em Belém, se ainda não caiu, tem um edifício com esse nome, vizinho a outro chamado Ernesto Nazareth.

Os americanos acham que quem inventou o avião foram os irmãos Wright. Os italianos aprendem que foi Leonardo da Vinci. Nós, brasileiros, juramos que foi Santos Dumont. Mas como gritar isso ao mundo se pouco ou quase nada se faz no Brasil para reforçar a tese? Em Fortaleza tem uma avenida com o nome dele. No RJ, um aeroportozinho de segunda. Mais alguma coisa? Não lembro.

Aproveitando que meu texto anterior era sobre folclore e músicas infantis, enquanto alguns “modernosos” reinventam a roda, o modernista Villa-Lobos encanta o mundo com as Cirandas. Nos links abaixo está o gringo fazendo uso delas. No primeiro, é clicar e ouvir “Nesta Rua, Nesta Rua, Ciranda #11, VIlla-Lobos, Fred Sturm, Piano”. Ao lado, a informação complementar: The 11th of the 16 Cirandas of Villa-Lobos, based on Brazilian children's songs. Live performance at the University of New Mexico, Keller Hall, 8/29/09.


No segundo, Terezinha de Jesus.


Abaixo, a capa de um CD gravado pelo Coro Infantil do Teatro Municipal do Rio de Janeiro: Villa-Lobos para Crianças. Tocou na TV e no rádio? Então, quais crianças ouviram? Dos banqueiros patrocinadores, talvez. Bem, além delas e das que integram o Coro, pelo menos mais duas: as minhas.


O repertório desse belíssimo trabalho:

01-O Castelo
02-Co,Co,Co
03-Carneirinho,Carneirão
04-Machadinha
05-Pai Francisco
06-Rosa Amarela
07-Que Lindos Olhos
08-Vida formosa
09-Samba Le Le
10-Constante
11-Ó Sim
12-A Cotia
13-Bela Pastora
14-Na Corda Da Viola
15-O Anel
16-Capelinha De Melão
17-Cai Cai Balão
18-Sapo Jururu
19-Caranguejo
20-A Gatinha Parda
21-Formiguinhas
22-Candeeiro
23-Nesta Rua Tem Um Bosque
24-Anquinhas
25-O Cravo Brigou Com A Rosa
26-Terezinha De Jesus
27-Nigue-Ninhas
28-Viuvinha Da Banda D Alem
29-Senhora Viúva, Viuvinha
30-Ó Limão
31-Meu Benzinho
32-Na Mão Direita
33-Uma, Duas Angolinhas

Basta. Deixo eu também as crianças em paz, afinal, como diz o resto da canção, “sou apenas um tijolo na parede”.

Falando nisso, a Maestrina Bianca Almeida, do Coral Vida e Luz, de Goiás, me enviou e-mail informando que meu texto “Laissez-Faire” está em lista de discussão virtual de regentes, coralistas e músicos na Internet. É isso. Tomara esse tijolo ajude na construção de qualquer parede.

Em tempo de Quaresma, quero, porém, terminar lembrando exatamente que, por mais forte que seja, um dia a casa cai. Está escrito: “Não ficará pedra sobre pedra”. Não tem coisa melhor na vida que a igualdade da morte. Do “jornalista” no fundo da arrogância ao lixeiro no alto da vassoura, a morte iguala tudo na horizontal. Tem poucas coisas boas no envelhecer. Uma delas é ir, gradualmente, se liberando das máscaras, voluntariamente ou com pequena ajuda da natureza.

Que lembrem disso os culpados pelos que estão, como Mozart, nas valas comuns do Haiti. Como nos velhos tempos das rádios, ofereço a esses distintos senhores, do próprio Wolfgang, DIES IRAE. Um dia não haverá sol. É uma estrela. Vai apagar. Tudo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

HEY, LEAVE THE KIDS ALONE!

Este mundão é mesmo divertido.

Quando eu fazia estágio em Psicologia Escolar em uma escola “construtivista” em Fortaleza, ouvi, pela primeira vez, crianças cantando tradicionais cantigas-de-roda com letras alteradas.  Depois, vi na Internet alguns textos detonando o repertório infantil brasileiro. Tudo bem, tudo certo se tais análises tivessem como autores conceituados estudiosos do comportamento infantil. Que nada! A inspiração vinha das famosas apresentadoras de programas infantis da TV brasileira, uma mais competente que a outra na arte de transformar pequenos seres humanos inteligentes em imbecis robotizados. Então, não se pode atirar o pau no gato, nem o cravo pode brigar com a rosa. Ai, meus sais...

Fui catar nas minhas velharias todos os discos coloridos que tinham gerado a trilha sonora da minha infância e transformei tudo em CD para meus filhos. Que maravilha!

 

A Festa no Céu, uma historinha contada em forma de poesia, com rimas perfeitas e música de qualidade. Escravos de Jó, Pai Francisco, Lili, A canoa virou e tantas outras recuperadas e passadas para meus filhos que, enquanto pude, orientei a fuga da TV ordinária.

Na minha infância sempre cantei e brinquei ao som de todas essas músicas e nunca, motivado por elas, matei nenhum gato nem maltratei qualquer outro animal.

A música não era eletrônica. Tinha orquestra de verdade e uma das assinaturas era de ninguém menos que Radamés Gnatalli.

Os “Disquinhos” (nome original) eram assim:

 

Não sou saudosista e não acho que “meu tempo” era melhor que o tempo dos meus filhos. Era o meu tempo e acabou. Eles ouviram o repertório que eu digitalizei, gostaram, mas a realidade deles é diferente. Não existe mais brincadeira de roda na rua. Eles têm Nintendo DSi, computador, Internet, cinema 3D e outras geringonças do século XXI, nem melhores ou piores que as que eu tive. Apenas diferentes. Uma coisa é certa: estão anos-luz de mim quando tinha a mesma idade.

Antes de sair do Brasil doei meus “Disquinhos” para o Museu da Imagem e do Som (MIS) de Fortaleza. Lá estão conservados em ambiente refrigerado 24 horas por dia, foram restaurados e podem ser escutados por quem se interessar.

Aos queridos professores “destrutivistas”, um pedido: Parem com isso! Se não convém mais “atirar o pau no gato”, sejam criativos e inventem outras letras e músicas, mas não façam Piaget revirar no túmulo com Villa-Lobos. Não toquem na herança folclórica do país, pois isso não fará dos seus pupilos cidadãos melhores, mas apenas sem memória histórica. E quando eles descobrirem isso, vão atirar o pau não no gato, mas em vocês!

Assistam Pedro e o Lobo, uma história infantil contada através da música. Foi composta por Sergei Prokofiev em 1936, com o objetivo pedagógico de mostrar às crianças as sonoridades dos diversos instrumentos. Cada personagem da história (o Pedro, o lobo, o avô, o passarinho, a pata, o gato e os caçadores) é representada por um instrumento diferente.

 

Para concluir, escutem Pink Floyd:

We don't need no education
We dont need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers leave them kids alone
Hey! Teachers, leave them kids alone!
All in all it's just another brick in the wall
All in all you're just another brick in the wall


Por favor, deixem as crianças em paz!

sábado, 16 de janeiro de 2010

A EMOÇÃO TEM RAZÃO

Um dia, conversando com uma amiga que muito admiro, falamos sobre concertos de música erudita ao ar livre. Ela me dizia da alegria de ter assistido um em Belém e visto pessoas em lágrimas, emocionadas com o que ouviam. Eu ponderei que mais feliz eu ficaria se, além de ouvir com o coração, essas pessoas também ouvissem com o cérebro. Não sei se ela, ao final, concordou comigo, pois é sempre muito discreta, mas pelo menos permitiu que eu me explicasse.

Certa vez, visitando na companhia de uma outra amiga, esta americana, uma daquelas galerias de arte que existem ao lado do Teatro da Paz, em Belém, vimos uma mostra fotográfica. Parando diante de algumas fotos, minha amiga comentava detalhes como “sombra”, “luz”, “ângulo”, “contraste”, “cor” etc. Impressionado, perguntei se ela tinha feito algum curso de fotografia. - Não. Aprendi na escola quando fazia o 2º grau. Foi a resposta.

O que parecia uma simples foto. continha, na verdade, uma infinidade de detalhes técnicos responsáveis pelo resultado final, visíveis apenas para os iniciados.

A escola de música na qual eu trabalhava em Fortaleza era perto do Mausoléu Castelo Branco, na Av. Barão de Studart. Não poucas vezes fiquei ali admirando e pensando como aquele prédio flutuava no ar. Um dia, um colega me explicou com palavras simples que, enterrada no chão, existe uma estrutura, quase do mesmo tamanho da estrutura externa, que equlibra forças e permite o efeito visual. É provável que não seja exata tal informação, mas imagino o que deve sentir um engenheiro ou arquiteto ao ler esta explicação técnica e, diante do monumento, entender exatamente como a obra foi realizada.

O mesmo estupor se abate em mim quando contemplo as cúpulas da Basílica de São Pedro e do Pantheon, em Roma.


Não é preciso ser engenheiro ou arquiteto para se emocionar diante de tais monumentos, mas certamente esses profissionais, além da emoção, compreendem as estruturas, os fundamentos, as bases que as sustentam.

Voltando para a música, é certo que muito do que hoje soa nas salas de concerto, no passado era tocado nas festas, nos bailes, nos salões, ou seja, era música de divertimento. Como também foi o Jazz. Entretanto, ambos os gêneros têm estruturas, fundamentos e bases.

Embora música seja pura emoção, reconhecer, por exemplo, um acorde de 5a. aumentada, escalas em movimentos contrários, uma cadência plagal ou interrompida, uma mudança de tonalidade, dinâmica, trimbres e tantos outros detalhes da estrutura de uma obra musical, dá razão à emoção. A pergunta vem expontânea: E que diferença isso faz na vida das pessoas? Penso que sirva apenas como mais um exercício daquilo que a Gestalt chama de “figura e fundo”. “Na subjetividade da percepção a escolha pode ser consciente ou inconsciente do que para aquela pessoa aparece como figura ou fundo.”

(cálice ou 2 pessoas?)


Panis et circenses. Figura ou fundo?

Parece que agora a matéria “Música” é obrigatória nas escolas públicas brasileiras. O mais importante nisso não é apenas o eventual surgimento e revelação de novos talentos musicais, mas, principalmente, a formação de platéia culta e exigente. Se tudo andar bem, é provável que em um futuro próximo os concertos no Brasil, em teatros ou parques, sejam realizados para multidões capazes de se emocionar compreendendo a linguagem musical e, sendo otimista, muitas outras, afinal...

A gente não quer só comida,
a gente quer comida, diversão e arte.
A gente não quer só comida,
a gente quer saída para qualquer parte.
A gente não quer só comida,
a gente quer bebida, diversão, balé.
A gente não quer só comida,
a gente quer a vida como a vida quer.
(Titãs)

A vida que me ensinaram como uma vida normal
Tinha trabalho, dinheiro, familia, filhos e tal
Era tudo tão perfeito se tudo fosse só isso
Mas isso é menos do que tudo, é menos do que eu preciso.
(Kid Abelha)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

DISSONÂNCIA

A briga é feia quando, em música, se tenta definir “dissonância”. Para resumir e tentar escapar de uma polêmica infinita, me serve apenas que dissonância é o oposto de consonância, esta última entendida como “concordância” e aquela como “discordância” conforme as muitas definições para ambas. Basta. Feio x bonito, agradável x desagradável, tensão x repouso etc., não vêm ao caso. São conceitos musicais subjetivos e relativos. Dependem do tempo (período), do contexto, da cultura, do ouvido e do coração.

Uma nota dissonante é aquela que diz “alô! tô aqui!”, ferindo a (nem sempre) burra unanimidade.

Existe uma outra dissonância, certa vez citada por um Presidente brasileiro que costumava pintar o cabelo de azul-higienópolis (bairro paulista). Nos livros acadêmicos recebe definições enormes, profundas, prolixas. Como meus rabiscos são publicados apenas no meu blog, lido por meia dúzia de gatos pinguços e alguns amigos e amigas caridosos, passo do academicismo para a psicologia de boteco, pedindo desculpas aos eventuais leitores do Portal de Óbidos, único reverberante. Bem que avisei ao caro Luiz Arthur quando me convidou como colaborador, mas ele me honrou com o espaço e agora... agora vai!

Dissonância Cognitiva. Gosto dela!!!

A teoria da dissonância cognitiva prega que cognições contradizentes servem como estímulos para a mente obter ou inventar novos pensamentos ou crenças, ou modificar crenças pré-existentes, de forma a reduzir a quantidade de dissonância (conflito) entre as cognições.

Impossível aprofundar a Teoria de Leon Festinger aqui, mas podemos dar uma pincelada superficial com a fábula de Esopo, reescrita por Jean de La Fontaine, A Raposa e as Uvas.

Com pequenas variações, é basicamente a história de uma raposa que tenta, sem sucesso, comer um cacho de convidativas uvas penduradas em uma vinha alta. Não conseguindo, afasta-se, dizendo que as uvas estariam verdes.

Moral:
* Aqueles que são incapazes de atingir uma meta tendem a denegri-la, para diminuir o peso de seu insucesso.

Eu queria uma Ferrari na minha garagem, mas tenho uma velha Peugeot. Pra que me serve uma Ferrari se não tem mala grande como minha Peugeot que me permite viajar com toda a família? Pois é. Com esse tipo de pensamento diminuo minha dissonância e entro em harmonia comigo mesmo. Uma ova!!!

Este ano vamos ser notas dissonantes que se fazem ouvir, comer os cachos de uva e comprar Ferrari (nem que seja de plástico!).

FELIZ 2010!