domingo, 5 de junho de 2011

O DISCURSO


"A boca fala daquilo de que o coração está cheio."
(Mt. 12,34)

Muitos, na época, não entenderam. O tempo passou, Freud explicou. Muitos ainda continuam sem entender. Bem, não sou eu que vou iluminar as mentes. Apenas me divirto quando percebo transbordar pela minha boca e, mais ainda, pela dos outros, aquilo de que o coração está repleto.

Sonho, ato falho, chiste... depois de alguns anos de prática clínica é tudo muito interessante e revelador.

"Não é o que entra na boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso torna o homem impuro."
(Mt. 15,11)
  
Hoje é domingo... um postzinho meia-boca.

terça-feira, 24 de maio de 2011

MOSAICORAL


Pronto o “mosaico”. Não estão todos os grupos. As fotos de alguns ficaram no Brasil. Não são da era digital. Pretendo buscar um dia.

Na ordem aleatória gerada pelo computador:

1. Coral da Pastoral do Menor - Paróquia S. Vicente de Paulo – Fortaleza
2. Família em estúdio acompanhando gravação de CD
3. Coral do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará - TJCE
4. Coral Aba Film (família) – Fortaleza
5. Coral do Conselho Regional de Enfermagem – COREN/CE
6. Coral do Instituto de Prevenção do Câncer do Ceará – IPCC
7. Coral S. Vicente de Paulo – meu, com apoio do Colégio da Imaculada Conceição (CIC/CE)
8. Coral do Hospital de Baturité - CE

9. Gravando CD de Coral
10. Grupo S. Pedro (canto) - Paróquia S. Vicente de Paulo – Fortaleza
11. Coral do Lions – Distrito LA-4 (Fortaleza)
12. Coral Infantil do CIC/CE (minha filha, 2ª da E -> D)
13. Coral da Superintendência Estadual do Meio Ambiente – SEMACE
14. Coral da Beneficente Portuguesa - Fortaleza
15. Coral S. Vicente de Paulo – Paróquia S. Vicente de Paulo - Fortaleza


Conforme vou lembrando, vou contando um pouquinho de história.

Em se tratando de visual de Coral tenho um pé medieval, mas acho que não é o momento de tentar explicar. Meu ecletismo sempre foi um problema: vou de AC/DC, Gregoriano e Carimbó dependendo do humor e do que considero harmonia de conjunto. Se a música “fechar a Gestalt”, seja o gênero que for, adoto.

Persegui a perfeição da forma com meus grupos e confesso que sem alicerce, base e suporte, hoje faria diferente.

As fotos estão aí. O som? O que eu consegui registrar - com pouquíssimos recursos financeiros - está no meu Canal (Fstudio) no Youtube e na série de CDs e DVDs PAX VOBIS. Ao vivo, quem ouviu, ouviu e, internamente, vaiou ou aplaudiu. Externamente só ouvi os últimos.

Os motivos pelos quais escrevo estas linhas são diversos. De todos, maus e bons, pinço os que contam para mim:

1. Levo a vida me divertindo e fazendo o que gosto. Trabalho, será?
2. Passo o bastão ao meu filho que, se quiser, continua a corrida.
3. Valeu!
    Finalizo com outra lembrança agradável.

    Grupão reunido e iniciado o ensaio, percebi que uma coralista do naipe Soprano (feminino), bem na minha frente, mastigava alguma coisa. Chiclete, pensei. Eu gosto também, mas não durante ensaio. Atrapalha, pode engasgar, não dá! Todos sabiam que não deviam colocar goma na boca durante uma hora e meia. Com educação, pedi para a moça jogar o chiclete fora. Ela disse que não mastigava chiclete. Curioso, perguntei, então, o que era. Ela respondeu que era... nada. Foi quando alguém do naipe Baixo (masculino), turma jocosamente conhecida como “baixaria”, gritou: Ela está ruminando!

    Com palavras não conseguirei descrever no que se transformou o momento.

    Corais... a todos, obrigado!

    domingo, 15 de maio de 2011

    CORAIS

    Era uma vez... um Coral que regi durante 10 anos e que não vou citar o nome para não comprometer ninguém.

    Na época eu deveria ter 30 e poucos anos. Embora sempre esteticamente deficitário, estava em pleno vigor da idade.

    O referido grupo era composto de distintas, elegantes e discretas senhoras com mais ou menos meio século de existência, porém, muito alegres e afinadas. Coral feminino. Nenhum homem além do Regente.

    Muito requisitado para eventos, eis que um dia o Coral deveria cantar uma Missa. Lá fomos nós para a igreja, sempre com algumas horas de antecedência para instalação e passagem de som, breve ensaio e acertos finais com o Sacerdote.

    Todo Coral sob minha regência tem uma equipe eleita democraticamente entre os coralistas para as diversas funções administrativas e de apoio. Nesse dia, a responsável pelas partituras esqueceu a pasta com todas elas e só percebeu quando pedi o material para iniciar o ensaio no local do evento.  Putz!

    Cada Missa tem, em média, 10 músicas e eu não tinha todas na memória. Precisava cifrar tudo no breve tempo que restava. Corre pra cá, corre pra lá, papel, caneta, letras no jornalzinho da igreja, teste rápido de som, enfim, um pandemônio no qual eu precisava manter o equilíbrio e a calma.

    Pedi a todas o máximo de silêncio. Precisava de concentração para cifrar tudo e, se possível, ainda fazer um rápido ensaio.

    Estava lá, concentrado, quando se aproxima uma coralista e sussurra no meu ouvido: - Maestro... - Agora não, dona Zeneide (nome fictício). Passaram alguns minutos e de novo: - Maestro... - Por favor, agora não posso falar. Respondi. Mais alguns minutos: - Maestro... Em tom mais firme e duro, quase gritando: - Agora não, dona Zeneide! Por favor, estou trabalhando!!! No que ela devolveu no mesmo tom: - Maestro, o zíper da sua calça está aberto e se continuar assim não vou conseguir me concentrar para cantar a Missa!!!

    Quando levantei a vista da partitura dei de cara com um grupo de senhoras sérias me olhando e não resistimos: gargalhada geral!!! Discretamente, afinal, estávamos em uma igreja! Relaxei, fechei o zíper, cifrei tudo e acho que foi uma das Missas mais animadas que cantamos. Deu tudo certo no final.

    Essa história foi lembrada, contada e recontada por anos entre nós, sempre com muito humor.

    Quem fez parte da cena sabe de qual Coral o caso integra o repertório, bem como o nome verdadeiro da minha querida coralista.

    Estou pensando em montar um mosaico com as fotos de todos os meus Corais, mas, no momento, fico por aqui.

    Que tenham todos um santo dia e uma Noite Santa.

    quinta-feira, 12 de maio de 2011

    LENDA$


    Pois é, pois é, eu não sou de igarapé,
    quem montou na cobra grande não se escancha em puraque.

    (Paulo & Rui Barata)

    Até pensei em escrever, contar dos meus filhos, de questionar o quanto disso ainda existe e é ensinado nas escolas, mas... sinceramente? Broxei. Who I am...

    Quem, por amizade ou caridade, lê este Diário, talvez tenha visto este parágrafo no post GELERT:

    Uma das vilas mais bonitas do Paí­s de Gales é Beddgelert, que fica na junção de três vales, no condado de Gwynedd.

    Milhares de visitantes de todas as partes do mundo vão para lá todos os anos, mas não é devido aos jardins ornamentais ou pelas atraentes lojas de souvenir.

    Uma lenda. Quantas existem só na Amazônia brasileira?

    Panfletar a região no mundo e, tudo bem, menos, nos aeroportos nordestinos que recebem todos os dias dezenas de vôos lotados de gringos? Blablablá... coisa de músico... idealista... va pensiero... deixa pra lá!

    Enquanto alguém de talento tocar e cantar Waldemar Henrique, algum túnel existirá no fim da luz...




    quarta-feira, 20 de abril de 2011

    STABAT MATER

    Ele nasceu, morreu e ressuscitou. Aleluia! Sem esse pequeno detalhe, tudo teria sido em vão. Por esse motivo é a Páscoa a maior e mais importante festa do cristianismo, embora para alguns se resuma a coelho que bota ovo de chocolate, feriado e praia.

    Todos os anos festejo a data e envio mensagens aos familiares e amigos celebrando a vida. Ano passado estive alguns dias em um hospital e dei de cara com a morte. É com ela que quero uma conversinha desta vez. Na verdade, ela está por perto sempre, mas consegue não chamar atenção, até quando resolve se manifestar. Antes de ontem (18/04), por exemplo, levou Pietro Ferrero, 48 anos, herdeiro de um dos homens mais ricos do mundo, Michele Ferrero, criador da Nutella. Estava passeando de bicicleta, o coração parou, caiu e não levantou mais. Assim, sem muita explicação.

    Segundo Carpeaux, são cinco grandes Stabat Mater: Vivaldi, Pergolesi, Haydn, Verdi e Rossini. As igrejas de Roma estão repletas deles neste período, mas o que me fascina no catolicismo é o conjunto, o completo, o todo, o tudo.

    Diante da Pietà me pergunto como alguns seres dotados de inteligência perdem tempo discutindo se aquela dona era, continuou ou nunca foi virgem, se depois ou antes daquele filho teve outros, se o pobre marido segurou a onda e outras firulas que, pelo fervor da discussão, parecem fazer diferença na direção que gira o planeta.

     Stabat mater dolorosa
    iuxta Crucem lacrimosa,
    dum pendebat Filius.
    Cuius animam gementem,
    contristatam et dolentem
    pertransivit gladius.


    Não vou colocar aqui o texto completo e traduzido, pois prefiro assim, duro como o mármore da estátua que Michelangelo faz macio como pano: MORTE! Absolutamente tudo caminha para ela e ao mesmo tempo foge dela. Filosofar sobre isso, aprofundar com teorias, discorrer sobre a música muitos já fizeram e não é o momento.

    O ponto é que, como católico, nestes dias, pela primeira vez, festejarei a morte de maneira diferente, mas também a ressurreição. Da primeira acho que perdi o medo e consigo bater com ela de frente, na boa. O problema é a segunda. Embora crendo na ressurreição em modo menos cinematográfico, tipo saindo da tumba em um corpo perfeito, radiante, que flutua no ar, mas como energia e matéria que retornam à fonte para uso e transformação que esta julgar conveniente "ad aeternum", minha fé de que os evolucionistas estejam errados tem que ser maior que um grão de mostarda, pois, se estiverem certos, corro o risco de, em uma infinita combinação aleatória de átomos e moléculas, ressuscitar como macaco e deste "evoluir" para humano. Aí, fala sério... não vale!

    FELIZ PÁSCOA!

    domingo, 3 de abril de 2011

    SENTINELA DA AMAZÔNIA

    Mais um post para minha querida Óbidos, Pará, Brasil! A inspiração para cometer o texto que segue chegou quando, ouvindo meu arranjo, lembrei o começo do Hino da cidade: Sentinela que guarda a riqueza... Lindo mesmo! Mas... Ops! Onde está a sentinela? Onde está a riqueza?

    A proporção entre títulos e renda não é muito boa. Abundam aqueles (sentinela, presépio etc.) e esta nem tanto. Mais ou menos meu caso. Logo, o bom senso recomenda não seguir escrevendo. "Porventura pode um cego guiar outro cego? Não cairão ambos no buraco?" (Lucas, 6,39). "Ninguém é profeta na própria terra." (Marcos 6,4). Porém, gostei muito do que li sobre a Mamangava, que eu nem sabia que existia, mas pesquisei e virei fã. É uma espécie de abelha.


    "Segundo as leis da aerodinâmica, a mamangava deveria ser incapaz de voar. Por causa do tamanho, do peso e da forma do corpo em relação à envergadura total das suas asas, voar para ela é cientificamente impossível. Mas, como ignora as leis da física, a mamangava, de qualquer jeito, vai em frente e voa..." John Maxwell

    Sou músico. Bom senso nem sempre me ditou estrada e, até aqui, paguei pelos meus erros, tolices e babaquices com dinheiro do meu parco talento e minha própria pele. Assim, como a mamangava, vou em frente...

    A cidade tem carnaval. A festa oficial tem um nome enoooorme! 4 sílabas, sendo 3 com 3 letras em um total de 11. Sendo carnaval a festa da carne e o nativo chupa-osso, seria mais divertido Carnavosso, afinal, depois dos 7 dias (e noites!), poucos continuarão comendo filé e muitos chupando osso. Viva o Mascarado Fobó (desse eu gosto)!

    Juazeiro, lá no Ceará, tem uma imensa estátua do Padre Cícero. Não vou entrar no mérito da idolatria e do fato que a Igreja não reconhece a santidade do "Padim", mas permite a romaria. Coisas humanas. O importante é que a estátua movimenta a cidade.

    Canindé. Está na Wikipedia: Possui o maior monumento religioso do mundo. Ei, não estou falando de Rio de Janeiro, Nova York ou Roma! É lá no (ainda) pobre sertão cearense!!!


    Aqui entre nós, que ninguém nos leia, meus filhos são cearenses e tenho queridíssimos amigos em todo o Ceará, mas, para "maior do mundo", esse monumento religioso merecia um acabamento melhor. De perto, parece que foi esculpido com um machado. Tudo bem. Estive em Assis, na Itália, e visitei tudo relativo ao Santo que considero um dos maiores exemplos do cristianismo. Viva $ão Francisco (que movimenta Canindé e Assis)!

    A Sentinela tem a Serra da Escama. De lá é possível ver a parte mais estreita do - esse sim - maior rio do mundo! Mas quando será que a cidade vai dar conta disso?

    Encontrei esta foto na Internet:


    Parece que é em Israel. Não importa.

    Lá em cima daquela Serra... tem uma arara loura. Fala arara loura! (repetir rápido, 3 vezes, sem errar) Conseguiu? Go ahead!

    É meu Diário... por favor...

    Lá em cima daquela Serra, devidamente recuperado o material que restou do passado e conta importante período da história do país, livre da degradação e do abandono dos dias atuais, uma gigantesca estátua de sentinela (não precisa ser a maior do mundo - já encheu o saco!) com um espaço em torno, espécie de mirante com bares, quiosques, comidas, música ao vivo, dança de carimbó, binóculos e lunetas para admirar o estreito do rio nesse vale imenso sem par, pousadas e, mais importante, fácil acesso por trilha ou estrada. Gringo, quando visita a África e a Amazônia, adora ser picado por carapanã, cobra, aranha etc. Ainda paga! Na boa.

    Não precisa muito dinheiro público para isso. A iniciativa privada, se perceber que pode faturar, investe rapidinho!

    Alto, Sentinela da Amazônia! Sentido! Atenção! Torna ao teu importante posto ou talvez, em breve, veremos oficialmente este cartaz:

    sexta-feira, 18 de março de 2011

    BOBOS DA CORTE



    Estou lendo "Musica Classica per Negati", de David Pogue e Scott Speck, com Introdução de Zarin Mehta, irmão do Zubin e Diretor Executivo da Philarmonica de NY, e Prefácio de Glenn Dicterow, Primeiro Violino da mesma Orquestra.

    Não conseguindo traduzir "Negati" com uma só palavra em Português, pedi ajuda aos meus colegas de trabalho, profundos conhecedores dos dois idiomas, e concluimos que seria melhor traduzir o sentido. Algo mais ou menos como "Música Clássica (ou Erudita) para Inaptos".

    Na página 20, da versão em Italiano, um parágrafo bateu direto no meu baú de memórias: Musicisti a servizio. Diz lá que um jovem músico na Europa em um passado de 300 anos seria aconselhado a procurar trabalho na corte de um rei, na casa um rico aristocrata ou em uma catedral. Muitos desses músicos, empregados de famílias nobres, eram tratados como servos e realizavam diversas tarefas. Apresenta um exemplo. Giuseppe Sammartini (1695-1775) foi um grande oboísta italiano, irmão mais velho do célebre Giovanni Battista, que escreveu algumas das mais belas sinfonias e que teve importante influência sobre o jovem Mozart. Como ganhava para viver? Era empregado da corte do Príncipe de Galles e prestava serviço como Chefe do staff doméstico, além de Professor de Música e Compositor. Então, sugerem os autores do livro, podemos imaginar o seguinte diálogo:

    PRÍNCIPE: As lasanhas estavam ótimas, Giuseppe.
    SAMMARTINI: Agradeço infinitamente Vossa Alteza por fazer elogios generosos e não merecidos ao meu humilde trabalho. O que deseja que seja preparado para o próximo domingo?
    PRÍNCIPE: Gostaria de um dos teus excelentes Concertos para Oboé. Adoro os teus ornamentos, as tuas melodias maravilhosas, as tuas decorações elegantes!
    SAMMARTINI: Vossa Alteza me deixa encabulado de orgulho.
    PRÍNCIPE: Ah, Giuseppe, quase esquecia: Faz engomarem melhor as minhas calças.
    SAMMARTINI: Pois não, Vossa Alteza.

    Assim viveram vários dos hoje famosos e grandes músicos. Mozart chutou o pau da barraca da corte onde trabalhava e levou, por esse motivo, um chute no traseiro. Pensava que tinha talento para coisa melhor. Terminou na vala comum.

    Hoje não é muito diferente. Com raras exceções, músico é sinônimo de Bobo da Corte. O problema é que, naquela época, reis, príncipes, aristocratas e religiosos costumavam andar vestidos. Hoje, também com raras exceções, estão nus. Completamente.